RENÃ MARGALHO – Formatura do Curso de Aperfeiçoamento para Oficiais de Náutica (APNT)

Ocorreu hoje (08/07), no CIABA, a solenidade de formatura do Curso de Aperfeiçoamento para Oficiais de Náutica (APNT), da turma Irineu Evangelista de Sousa. Formaram-se 14 alunos, sendo 13 homens e 1 mulher. Os concluintes receberam a platina dos seus respectivos padrinhos e do CMG Josué Fonseca Teixeira Júnior e o certificado internacional STCW, que os habilita para comandar embarcações de qualquer porte na navegação de cabotagem e no apoio marítimo, além da possibilidade de imediatar no longo curso.

O primeiro lugar da turma foi compartilhado pela CCB Laila de Sá e pelo CCB Michel Hercules Correa, que empataram na média final.

Abaixo, segue a transcrição do discurso deste colunista, que foi o paraninfo da turma.

Discurso de Paraninfo do do APNT 2021.1

Professor Renã Margalho

Bom dia!

Peço licença ao Comandante desta OM de Ensino, o Sr. CMG Josué Fonseca Teixeira Júnior. Cumprimento os professores e as professoras presentes, os militares, os convidados e, em especial, os concluintes do Curso de Aperfeiçoamento para Oficiais de Náutica.

Ser paraninfo é a maior honraria para um professor, vinda do corpo discente. É uma forma de reconhecimento. É ser o padrinho da turma. E ser padrinho é ter um laço eterno.
Tive a honra de ser convidado para ser o paraninfo da turma APNT 2021.1.

Neste discurso, não quero ensinar lições de vida, tão pouco dar aconselhamento de como ser um bom profissional. Simplesmente gostaria de narrar, de forma breve, quais as premissas que derivaram nesse momento e, ao final, fazer- lhes alguns pedidos.

Sempre admirei e me inspirei nos meus professores. Eles foram o espelho, no qual projetaram e projetam a imagem do que um dia eu gostaria de me tornar. Em março 2014, ingressei no CIABA como professor efetivo de Direito Marítimo e Legislação Ambiental. Foi a realização de um sonho.

Como docente, espero sempre ter a inquietude da dúvida e a motivação da constante melhora. Espero que hoje eu consiga ser melhor que ontem e pior que amanhã. Espero sempre ter a consciência que a sala de aula é um ambiente de troca e aprendizagem mútua. Enquanto eu for professor, sempre aprenderei com meus alunos. Cora Coralina definiu bem o meu sentimento de docente, quando disse que “feliz é aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. Espero sempre ser feliz nessa profissão, como sou hoje e como estou sendo nesse momento. Nessa turma de Pós- Graduação da Marinha Mercante, diante de alunos de altíssimo nível e com vasta experiência, agradeço a oportunidade de ter ensinado e aprendido com vocês.

A pandemia testou e está testando nossa saúde física e mental. Mudanças do tempo de embarque, preocupações, perdas de familiares e de entes queridos e as aulas em EAD são exemplos das adversidades enfrentadas. É difícil e doloroso, mas nós somos a Marinha Mercante e a Marinha Mercante não pode parar. Sigamos, com o peso da perda, do jeito que dá, mas sigamos. O povo depende de nossa resiliência. Vamos resistir, não vamos quebrar.

Aqui deixo minhas homenagens póstumas ao Professor Paulo Vitor Zigmantas, o querido e saudoso CHEMAQ, que nos deixou em decorrência da COVID-19.

No ensino a distância aprendemos o quão importante é o ensino presencial. Por mais que nos esforcemos, nada supera a troca em sala de aula.

Em sala de aula, quando retornamos ao ensino presencial, revisitamos as disciplinas Águas Jurisdicionais Brasileiras e Bandeira de Conveniência. Foi incrível. No primeiro dia, eu estava empenhado em dar o meu melhor, ansioso para conhecê-los e voltar a ministrar aulas presenciais. Vocês não mereciam nada menos do que o melhor, afinal, todos e todas que aqui estão tiveram um alto grau de abdicação e sacrifício. Quanto tempo longe da família?
Quanto tempo sem trabalhar? Quanto tempo tendo despesas em outra cidade, simplesmente para chegar a esse momento?

Bravo Zulu, a terceira lapa chegou. Vocês conseguiram!

As diretrizes que estabeleci para os três dias de aulas presenciais foram baseados na dinamicidade do conhecimento. Busquei provocar em vocês a construção, desconstrução e reconstrução.

Vimos que toda história tem dois ou mais lados, ao tratar da pirataria na Somália. Que o óbvio engana, quando falamos que as bandeiras de registro aberto são as maiores signatárias das Convenções Internacionais sobre Segurança na Navegação. Que só por meio de um conhecimento integrado, sistemático e crítico, conseguiremos entender, de fato, a base do problema, quando abordamos a ligação dos
acidentes marítimos, com as bandeiras de conveniência, a falta de vínculo real dessas, para com seus navios, a composição da IMO, os requisitos para que uma norma internacional entre em vigor e, por fim, os Estados detêm as maiores frotas de navios do mundo.

Deposito minha fé de um mundo melhor na educação crítica, inclusiva e de qualidade.

Para finalizar, gostaria de fazer 6 (seis) pedidos vocês:

1 – Inspirado em Belchior, que na canção Alucinação disse “amar e mudar as coisas me interessa mais”, peço que vocês sejam agentes da mudança. Que continuem estudando e criticando. Não parem. Não se conformem. Não se curvem. Articulem-se. Lutem.

2 – Busquem melhorias para a nossa Marinha Mercante e para toda a classe de Aquaviários. Cuidado com a falácia de “menos direitos, mais empregos”. Jamais abdiquem dos seus direitos. Eles foram conquistados com muita luta, sangue e suor.

3 – Jamais desdenhem para os Praticantes e Oficiais mais jovens, da importância da formação na EFOMM e no ASON. Além de um resultado desastroso para nosso corpo discente, com efeito em cadeia, tais posicionamentos ofendem e desmotivam os professores. Acreditem, muitas pessoas estão comprometidas com a melhoria do Ensino Profissional Marítimo.

4 – Inspirem os mais jovens. Ensine-os e aprenda com eles. Parafraseando Esopo, “Ninguém é tão grande que não possa aprender, nem tão pequeno que não possa ensinar”. Como meus professores foram para mim, sejam o espelho que eles refletirão a imagem que um dia gostariam de se tornar.

5 – Peço que rechacem atos e falas machistas. Por muito tempo foi negado o direito das mulheres ocuparem posições de destaque. As primeiras Oficiais Mercantes ingressaram nos navios há, aproximadamente, 21 anos. Pesquisas orientadas por mim, infelizmente evidenciaram, na Marinha Mercante, a existência de um ambiente laboral que ainda ocorre assédio sexual e moral, motivado por questões de gênero. Elas já provaram sua competência e sua aptidão para o trabalho e, mais que isso, reeducaram o ambiente de bordo. Aproveito e cumprimento, de forma especial, nossa única representante feminina, a CCB Laila de Sá. Você é inspiração para outras mulheres.

6 – Por fim, meu último pedido, paradoxalmente o mais fácil e mais difícil, é que sejam felizes.

Concluo com uma breve correção no tempo verbal do início deste discurso. Coordenar a aprendizagem das três disciplinas do APNT fizeram-me lembrar de que ser professor não foi, mas é a realização de um sonho. Que, apesar de todas as adversidades enfrentadas, com décadas de desrespeito e desvalorização, vocês, alunos e alunas, são o que nos motivam, nos inspiram e nos fazem seguir em frente. São momentos como este, de reconhecimento, que renovam nossas forças na luta por uma educação de qualidade.

Reitero meus agradecimentos aos CCBs José Cleber Santos, Laila de Sá Cabral, Daniel Oliveira, Felipe Uchôa, Felipe Braga, Fellipe Silva, Gabriel Caspary, José Augusto Belarmino, José Carlos de Oliveira, José Custódio do Nascimento, Michel Hércules Correa, Paul Christian, Rafael Quaresma e Rodrigo Thiago Eduardo. Vocês serão para sempre meus afilhados e ficarão marcados na minha vida. Obrigado!

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