Um exemplo de chance para melhorar nossa infraestrutura em todos esses aspectos é o novo porto que está em construção no Espírito Santo (Imetame/Divulgação)

Quais serão os corredores verdes para exportar nossa soja

O Brasil pode melhorar a infraestrutura logística para transportar grãos de forma mais econômica e com menos emissões.

Alexandre Mansur

O Brasil tem dois grandes desafios para aumentar sua competitividade. O primeiro é modernizar a infraestrutura logística para a exportação de produtos agrícolas. Isso é fundamental no país, que possui um grande potencial para ser mais competitivo, mas sofre com uma logística de exportação ultrapassada. Essa logística é crucial para entrar no mercado com bom preço e segurança. O segundo grande desafio é reduzir a emissão de carbono nessa área. Isso é inescapável uma vez que, países e empresas estão assumindo o compromisso de reduzir as emissões de gases responsáveis pelas mudanças climáticas. Mas temos a oportunidade de atender esses dois desafios, criando boas rotas de exportação ao mesmo tempo eficientes, seguras e de baixa emissão. Esse foi o tema do seminário “Corredores verdes para a soja: a rota sustentável até a China”,realizado pelo Instituto O Mundo Que Queremos, com apoio da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), do Instituto Clima e Sociedade, do portal Um Só Planeta e da Convergência pelo Brasil, no dia 30 de novembro. (O vídeo completo pode ser assistido no link.)

Um exemplo de chance para melhorar nossa infraestrutura em todos esses aspectos é o novo porto que está em construção no Espírito Santo. Ele fica na cidade de Aracruz, e está previsto para ser inaugurado no final de 2023. Com o investimento de 2,8 bilhões, o novo porto tem potencial para receber navios de dimensões até então inéditas no Brasil. Esses navios gigantes são uma tendência no mercado global. Permitam transportar carga – especialmente grãos – gastando menos combustível por tonelada, o que significa uma menor pegada de carbono e um custo mais baixo. A vantagem é mais expressiva para mercados mais distantes. Isso é importante porque o Brasil é o país mais distante de nosso maior parceiro comercial: a China. A perspectiva é de receber navios de 150 a 200 mil toneladas permitindo uma redução de 46% de emissões no trecho marítimo até a China”, diz Christine Samorini, presidente da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes). Para o comandante Fernando Alberto Costa, oficial da reserva da Marinha do Brasil, “essa infraestrutura é extremamente importante e mais eficaz com menores custos e menores impactos para os estados”.

A ampliação da capacidade dos portos do litoral brasileiros incentiva também investimentos para melhorar a malha ferroviária que traz os grãos das áreas de produção. Isso é vital. “O produtor rural é extremamente eficiente e se torna menos competitivo quando entra no sistema de logística. A nossa logística ainda é bastante encolhida. Muito pequena para o sistema produtivo do nosso país”,afirma Fábio Meirelles Filho, presidente da Associação dos Produtores de Soja, Milho, Sorgo e Outros Grãos Agrícolas do Estado de Minas Gerais (Aprosoja-MG). A expectativa é que investimentos para melhorar a saída do Oeste para o Leste melhorem a situação. “O Brasil exporta metade do volume de soja que produz. Cerca de 90% disso vai para a China. A redução de custos logísticos aumenta o market share do país.”, afirma Thiago Péra, Coordenador do Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial do Departamento de Economia, Administração e Sociologia da Universidade de São Paulo (Esalq-Log). Essa modernização atende a uma grande necessidade do setor.

Os benefícios da redução das emissões do transporte virão em conjunto com a desvinculação total da agricultura brasileira de qualquer prática ou estímulo indireto ao desmatamento e à grilagem. Isso porque o desmatamento é a maior fonte de emissões do Brasil hoje. A maior parte desse desmatamento é ilegal e não contribui para aumento de renda nem de produção. Os agricultores são capazes de aumentar a produção e abastecer o mercado com desmatamento zero. Para Joaquim Levy, diretor de Estratégia Econômica do Banco Safra, “cada vez fica mais evidente que a gente tem a possibilidade de expandir a agricultura sem desmatar, inclusive pelo aproveitamento das pastagens degradadas”. Segundo levantamento da Embrapa, só na Amazônia já há área desmatada e abandonada do tamanho dos três estados do Sul do Brasil. A cobrança dos mercados importadores e os consumidores brasileiros nesse sentido vão crescer.“A questão da descarbonização ligada ao setor agro começou com os biocombustíveis e está migrando com muita rapidez para o mercado de alimentos”, afirma André Nassar, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove).

Como o desmatamento importa, ele deve ser considerado quando se compara as opções logísticas. Principalmente se elas envolvem obras que irão gerar ou incentivar o desmatamento. Isso é especialmente crítico quando se fala de uma região sensível como a Amazônia. É ingênuo contabilizar apenas as árvores retiradas diretamente pela construção de uma ferrovia na Amazônia. O impacto vai muito além do canteiro de obras. A mera especulação sobre a construção de uma ferrovia na Amazônia já estimula o mercado de grilagem (invasão e roubo de terras públicas), principal fator de violência e desmatamento na região. Por isso, André Ferreira, Diretor do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), frisa que “a descarbonização não se dá apenas no modo de transporte, mas dependendo de onde você implanta essa infraestrutura ela tem um efeito de desmatamento indireto”. O processo de tomada de decisão precisa ser claro e oferecer opções com instâncias mais transparentes desde o início sobre os impactos econômicos, sociais e ambientais. Quanto mais o Brasil discutir francamente esse tema, consultando os diversos lados da questão, e principalmente comparando as alternativas de logística, mais preparados estaremos para tomar as melhores decisões.

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