Brandon Lopes construiu carreira em um dos nichos mais raros da engenharia, a inspeção por ACFM, e explica por que a escassez de profissionais qualificados abre portas no Brasil e no exterior.
Em um setor onde falhas podem significar vazamentos de óleo, crimes ambientais e prejuízos milionários, a engenharia offshore enfrenta um problema silencioso: a falta de profissionais altamente especializados para atuar em inspeções críticas. Entre essas áreas, a ACFM (Alternating Current Field Measurement) se destaca como uma das técnicas mais estratégicas e menos dominadas do mercado. No Brasil, são menos de 200 inspetores qualificados. No cenário internacional, a demanda só cresce.
É nesse contexto que se insere a trajetória de Brandon Lopes, engenheiro mecânico de 32 anos, nascido no Rio de Janeiro e criado entre a Ilha do Governador e Itaboraí, na Região Metropolitana Leste Fluminense. Sua história ajuda a entender por que faltam especialistas em técnicas avançadas de inspeção e por que profissionais brasileiros, quando bem qualificados, passam a ser disputados fora do país.
Após a morte do pai, ainda jovem, Brandon precisou amadurecer cedo. Ingressou na Faetec e passou a viver uma rotina intensa, conciliando o ensino médio com o curso técnico em máquinas navais, em jornadas que ocupavam praticamente o dia inteiro. Foi ali que encontrou afinidade com a área técnica e com o funcionamento de sistemas industriais.
O primeiro emprego veio no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), mas a decisão de pedir demissão para cursar a faculdade de engenharia marcou um ponto de virada. Durante a graduação, trabalhou como desenhista e projetista, até ser impactado pela crise econômica de 2016, que levou milhares de profissionais técnicos ao desemprego. Brandon enfrentou dificuldades, trabalhou como motorista de aplicativo para se sustentar e seguiu estudando.
Um gargalo técnico que ameaça projetos bilionários
A retomada aconteceu em uma empresa de engenharia voltada ao tratamento de água e esgoto. Com o diploma em mãos e mais experiência prática, Brandon passou a direcionar a carreira para áreas cada vez mais específicas, até migrar para o setor offshore. Primeiro, em empresas de mergulho humano, atuando em inspeções submersas de até 30 metros de profundidade; depois, em operações de maior complexidade técnica.
Foi nesse ambiente que teve contato com a ACFM, uma técnica de ensaio não destrutivo utilizada para identificar trincas abertas em soldas, inclusive em estruturas submersas. Essencial para as chamadas inspeções de classe, exigidas periodicamente para garantir a segurança e o seguro de plataformas, dutos e estruturas marítimas, a ACFM demanda formação rigorosa, certificações específicas e alto nível de responsabilidade técnica.
“A técnica é extremamente precisa, mas ainda pouco difundida no Brasil”, explica Brandon. A consequência é um gargalo importante: poucos profissionais qualificados para uma demanda que envolve projetos estratégicos de energia, petróleo e gás. Ao perceber essa lacuna, ele investiu em qualificação, obteve certificações e passou a atuar diretamente na inspeção de soldas críticas.
Atualmente, Brandon trabalha em operações offshore com ROVs, robôs subaquáticos operados remotamente, responsáveis por mapear e inspecionar dutos instalados no leito marinho, muitos deles sem dados atualizados. A rotina envolve jornadas de 12 horas, em turnos diurnos ou noturnos, acompanhando operações que podem durar dias seguidos, com robôs submersos por até 72 horas ininterruptas.
Mais do que uma exigência técnica, esse tipo de inspeção tem impacto direto na preservação ambiental. Falhas estruturais podem causar vazamentos de óleo e danos irreversíveis aos ecossistemas marinhos. “Se um duto passa próximo a corais ou espécies sensíveis, isso é registrado e comunicado. Existe toda uma cadeia de responsabilidade ambiental envolvida”, afirma.
Quando a especialização vira passaporte profissional
A escassez de especialistas faz com que grande parte das oportunidades esteja concentrada fora do Brasil. Estados Unidos, países africanos e o Oriente Médio lideram a demanda por profissionais com domínio de técnicas como a ACFM. No mercado nacional, os projetos são mais pontuais; no exterior, a demanda é contínua.
Atento a esse cenário, Brandon criou o maior grupo brasileiro voltado à ACFM em uma plataforma de mensagens, reunindo cerca de 200 profissionais e interessados. O objetivo é compartilhar conhecimento, orientar sobre certificações e facilitar o acesso à qualificação em uma tentativa de reduzir um gargalo que afeta todo o setor.
Para ele, os Estados Unidos representam a principal porta de entrada internacional, com destaque para o Texas, um dos maiores polos globais de energia. “É uma área que exige estudo contínuo, disciplina e responsabilidade. Mas, para quem se especializa, as oportunidades aparecem”, conclui.
Por Portal da Navegação, via Assessoria.
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