Fieam defende plano de governo permanente para integrar transportes, combater gargalos climáticos e reduzir os custos na Amazônia.
A falta de integração entre rodovias, hidrovias, ferrovias e portos continua impondo um dos maiores entraves ao desenvolvimento econômico da Amazônia e elevando os custos da produção industrial da Zona Franca de Manaus (ZFM).
O diagnóstico foi reforçado pela Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), que defende um plano permanente de investimentos para tirar a região do isolamento logístico.
E essa agenda amazônica se faz necessária como um dos pontos fundamentais a constar no plano de governo dos candidatos a presidente da República, assim como dos futuros governadores a serem eleitos nos sete estados da região Norte em outubro de 2026.
O diretor da Fieam, Augusto César Rocha, resumiu o desafio em uma frase:
“Precisamos trazer o Estado brasileiro para o século 21 na Amazônia”.
Para a entidade, a solução passa por uma política de Estado que garanta investimentos contínuos em infraestrutura.
A proposta é destinar, obrigatoriamente, 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) da Região Norte para obras estruturantes capazes de reduzir o chamado custo Amazônia, que é o conjunto de despesas adicionais enfrentadas pelas empresas devido às limitações logísticas da região.
Embora o governo federal tenha destinado cerca de R$ 1,2 trilhão ao setor de infraestrutura desde 2021, segundo dados citados pela reportagem do Valor Econômico, a Fieam avalia que os investimentos ainda não foram suficientes para eliminar gargalos históricos que dificultam o escoamento da produção amazônica.
Dependência dos rios
De acordo com Augusto Rocha, no Amazonas, a logística depende majoritariamente da navegação fluvial. E essa característica, aliada à ausência de uma ligação terrestre plenamente funcional com o restante do país, torna a economia regional extremamente vulnerável aos eventos climáticos extremos.
“Nos últimos anos, as secas severas registradas na bacia amazônica reduziram drasticamente o nível dos rios, comprometendo a navegação de embarcações de grande porte e provocando impactos diretos sobre a indústria instalada em Manaus”, informa o diretor da Fieam.
Ainda, segundo Rocha, durante os períodos mais críticos da estiagem, as empresas da Zona Franca de Manaus chegaram a registrar um custo adicional de aproximadamente R$ 1,4 milhão por dia, consequência de atrasos na cadeia logística e da necessidade de adoção de soluções emergenciais para manter o abastecimento e a distribuição de mercadorias.
Taxa seca
Outro fator que pressionou os custos foi a chamada taxa da pouca água, sobretaxa aplicada pelas empresas de navegação diante das restrições operacionais dos rios amazônicos.
Em alguns casos, conforme Augusto César Rocha, o valor adicional variou entre US$ 1.500 e US$ 2.300 por contêiner, já que os navios precisaram navegar com carga reduzida para evitar encalhes.
Rotas mais longas e operações emergenciais
“Com a diminuição da profundidade dos rios, parte da carga destinada à Zona Franca precisou ser redirecionada para portos alternativos, como Vila do Conde (PA) e Pecém (CE), de onde segue para o Amazonas em embarcações menores. A mudança de rota aumenta o tempo de transporte, encarece os fretes e reduz a competitividade da indústria amazonense”, explica o diretor da Fieam.
E prossegue a análise Rocha:
“Além disso, em diferentes momentos foi necessária a instalação de portos flutuantes provisórios, estrutura emergencial que também gera custos milionários para garantir a continuidade das operações logísticas. Estradas precárias agravam o problema”.
Deficiência da infraestrutura
A situação se torna ainda mais complexa diante das deficiências da infraestrutura rodoviária brasileira.
Levantamento recente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que mais de 60% das rodovias federais apresentam condições ruins ou péssimas, cenário que aumenta o custo operacional das empresas e reduz a eficiência da logística nacional.
Na avaliação da Fieam, superar esses gargalos exige planejamento integrado entre os diferentes modais de transporte (rodoviário, hidroviário, ferroviário, portuário e aéreo) para que a Amazônia deixe de depender quase exclusivamente dos rios e tenha maior previsibilidade logística.
O tema tem sido recorrente em debates promovidos pelo setor de transportes e pelo próprio Ministério de Portos e Aeroportos, que defende uma maior integração dos modais para fortalecer a competitividade da região.
Competitividade da ZFM
Dessa forma, a preocupação da indústria amazonense ocorre em um momento em que também avança a regulamentação da reforma tributária.
Segundo o presidente da Fieam, Antônio Silva, preservar integralmente as vantagens competitivas da Zona Franca de Manaus só será suficiente se vier acompanhado da redução dos custos logísticos que hoje penalizam as empresas instaladas no Polo Industrial.
Para o setor produtivo, incentivos fiscais e infraestrutura precisam caminhar juntos. Sem uma logística moderna, integrada e resiliente às mudanças climáticas, o chamado “custo Amazônia” continuará comprometendo a competitividade da indústria, afastando investimentos e limitando o potencial econômico da região.
Por Portal da Navegação, via Valor Econômico.
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