Nos rios que cortam os municípios do interior do Amazonas e ligam essas cidades à capital, Manaus, o silêncio da floresta esconde uma rotina tensa. Embarcações vão e vêm, levando moradores, alimentos e mercadorias. Mas, há anos, o que tira o sossego de muitos ribeirinhos é o medo de dividir o mesmo caminho com uma rede de crimes que se cruza no meio do rio e desafia até a presença do Estado. Drogas, ouro ilegal, biopirataria e madeira retirada de forma irregular passam por ali, misturadas à vida ribeirinha.
A chegada da Base Fluvial Arpão 1 a Jutaí (município a 751 quilômetros de Manaus), prevista para próximo mês, é uma esperança de mudança na rotina de quem vive às margens desses rios. A estrutura foi apresentada à imprensa na última quinta-feira (26), durante o lançamento do projeto.

Fiscalização será intensificada em rotas que ligam o Alto Solimões à capital amazonense. Foto: Daniel Brandão/A CRÍTICA
Em entrevista exclusiva, o secretário de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), coronel Marcus Vinícius Almeida, e o chefe do Estado-Maior Geral da Polícia Militar do Amazonas (PMAM), coronel Bruno Azevedo, falaram sobre como esses crimes se conectam e como as forças de segurança estão tentando conter esse avanço.
Crimes interligados
Segundo Azevedo, nada acontece de forma isolada na região. Um crime puxa o outro, e todos crescem, principalmente, onde o acesso é mais difícil. Ele destacou que as rotas do tráfico que passam pelo Amazonas, por exemplo, começam fora do país e só funcionam porque encontram apoio local.

O chefe do Estado-Maior Geral da PMAM, coronel Bruno Azevedo, destacou que crimes como tráfico, garimpo ilegal e biopirataria atuam de forma interligada na região. Foto: Daniel Brandão/A CRÍTICA
“Os dados de inteligência apontam que nós temos traficantes que vêm tanto do Peru quanto da Colômbia para trazer a droga para Manaus e, de lá, fazer a distribuição. E, infelizmente, muitas vezes, essas pessoas recrutadas são da própria comunidade ribeirinha, seduzidas pelo tráfico para atuar como ‘mulas’”, explicou Azevedo.
Denunciar ajudaria a enfraquecer esse ciclo, mas nem sempre é simples. Em comunidades pequenas, onde todo mundo se conhece, o medo fala mais alto. Há receio de represálias e de ficar marcado dentro da própria comunidade. Mas, segundo Azevedo, essa situação tende a melhorar com a presença das forças de segurança e com a instalação de bases policiais em pontos estratégicos.
“Segurança pública também é sentimento. A pessoa precisa se sentir segura para confiar. Com a polícia presente, equipada e treinada, a tendência é aumentar apreensões e prisões, além de fortalecer a confiança da população”, afirmou Azevedo.
A Base Arpão 1, que chegará a Jutaí, deve intensificar abordagens e fiscalizações nas embarcações que cruzam a região, situada em uma das principais rotas do tráfico que sai de Tabatinga e segue até Manaus. A estrutura flutuante reúne efetivos da PMAM, Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), Corpo de Bombeiros e Departamento de Polícia Técnico-Científica (DPTC), numa tentativa de frear o vai e vem que, há anos, também carrega ilegalidade escondida no meio da rotina ribeirinha e do transporte de passageiros e mercadorias.
Indício de participação de moradores e até agentes públicos
Coronel Vinícius Almeida também confirmou que, no interior, crimes como tráfico de drogas, biopirataria, garimpo ilegal e até pedofilia acabam se misturando. Mas, segundo ele, há ainda outro desafio, que é a resistência de alguns prefeitos à instalação de bases como a de Jutaí. Ele também afirmou que há indícios de participação de moradores e até de agentes públicos nesse sistema, embora as investigações ainda estejam em andamento. “Claro que vai ter envolvimento de munícipes, vai ter envolvimento de políticos. Mas o que nós temos são relatórios de inteligência que apontam caminhos. Isso precisa ser comprovado dentro de investigações. Não posso afirmar nomes sem provas, mas existem indícios, sim, envolvendo figuras públicas”, declarou o secretário.

O secretário de Segurança Pública do Amazonas, coronel Marcus Vinícius Almeida, afirmou que a Base Arpão deve reforçar o combate ao crime organizado nas rotas fluviais do interior. Foto: Daniel Brandão/A CRÍTICA
Apesar da presença do crime organizado, Almeida afirma que o Amazonas não tem áreas totalmente dominadas. “Dominado seria se o Estado não tivesse controle territorial, como em algumas áreas do Rio de Janeiro. No Amazonas, não temos nenhuma área em que a polícia não entre. O que existe é a presença de organizações criminosas, como no restante do país”, explicou.
Crime x sobrevivência
Mesmo com o reforço da segurança, o enfrentamento de crimes como o garimpo ilegal, segundo Almeida, muitas vezes envolve desafios que ultrapassam a atuação policial. Em cidades como Jutaí, essa atividade, frequentemente ligada a grandes grupos criminosos, também é vista como alternativa de renda para parte da população.
“Sabemos que há envolvimento de organizações criminosas, mas também existem pessoas que fazem isso por necessidade. Não podemos colocar todo mundo no mesmo balaio. Há quem veja o garimpo como única alternativa de renda em regiões onde faltam políticas públicas e oportunidades econômicas… Nós temos uma necessidade real de emprego no interior, e o Brasil não tem um planejamento econômico para a Amazônia. O desenvolvimento do interior é essencial para quebrar essa teia de ilegalidade”, opinou.
No fim das contas, é nesse cenário que muita gente tenta sobreviver. De um lado, organizações criminosas lucram. Do outro, moradores seguem no meio dessa teia, entre a necessidade e o medo, esperando que a presença do Estado não chegue só com fiscalização, mas também com alternativas de vida.
Para a notícia original, acessar A CRÍTICA.
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