BR-319: isolamento e atoleiros desafiam comunidades na Amazônia.

Manicoré (AM) — A realidade nas comunidades do entorno da BR-319 se torna cada dia mais complicada, com relatos de isolamento e situação precária. A rodovia, que deveria servir como um importante elo entre o Amazonas e o restante do país, apresenta sérios problemas de infraestrutura que afetam diretamente a vida dos moradores locais.

A série “Rodovia na Floresta: Ecos da BR-319” ilustra com profundidade o impacto devastador que o abandono da estrada causou nos moradores e motoristas. Esta reportagem destaca a história de Nilda Castro dos Santos, uma moradora da comunidade Igapó-Açu, que vive às margens da BR-319 há quase cinco décadas. Ela testemunhou a transição de uma rodovia movimentada para uma via em total abandono, com o fechamento oficialmente ocorrendo em 1988.

Com a deterioração da estrada, o deslocamento tornou-se um desafio. Nilda menciona que antes do fechamento, a movimentação era intensa e as famílias prosperavam. Mas desde então, apenas cinco das 95 famílias da comunidade permaneceram na localidade. “Não tinha mais como ir e nem como vir”, relembra Nilda, um sentimento que ecoa entre os habitantes que enfrentam dificuldades cotidianas.

Qual o impacto do isolamento na comunidade de Manicoré?

A crise gerada pela falta de acesso à rodovia afetou a vida dos moradores em múltiplos aspectos. O presidente da Associação dos Amigos da BR-319, André Marsílio, destaca que o isolamento forçou muitas mulheres a darem à luz em casa, longe de serviços médicos adequados. O acesso a alimentos e produtos essenciais passou a depender do transporte fluvial, que é mais lento e inseguro. Estas condições refletem a fragilidade dos sistemas de suporte às comunidades do Amazonas.

O comerciante Antônio Graças, que reside em Careiro, próximo ao quilômetro 102 da BR-319, também revela que, durante anos, os habitantes da região dependiam de barcos para conseguir mercadorias. “A estrada, mesmo quando foi reaberta na década de 1990, estava em condições muito ruins, cheia de buracos e atoleiros”, relata Graças. Durante o período chuvoso, o tráfego na rodovia se torna praticamente inviável, gerando ansiedade e frustração nos motoristas.

Como a crise de oxigênio expôs os problemas da BR-319 em Manaus?

Em 2021, a situação da BR-319 chegou ao seu ponto crítico durante a crise do oxigênio em Manaus, quando a pandemia de COVID-19 intensificou as deficiências estruturais da rodovia. De acordo com os relatos, muitos carregamentos de oxigênio enfrentaram atrasos ao tentar chegar à capital devido às condições precárias da pista. “Os aviões não comportavam, e pela estrada demorava cinco dias para chegar”, afirma Antônio Graças, subestimando o papel crucial que a rodovia desempenha no transporte de suprimentos vitais.

O colapso da rodovia, manifestado em acidentes como o desabamento de duas pontes em 2022, quando 14 pessoas ficaram feridas e cinco morreram, trouxe novamente a atenção para o abandono prolongado da infraestrutura. Estes incidentes revelam os riscos enfrentados diariamente por quem depende da única conexão terrestre em uma região onde as distâncias são imensas e o acesso a cuidados e bens é limitado.

Quais as condições atuais da BR-319 e o que esperar para o futuro?

Mesmo com máquinas realizando manutenção em trechos da rodovia, a realidade ainda é alarmante. Ao viajar entre Igapó-Açu e o distrito de Realidade, em Humaitá, a equipe da Rede Amazônica reportou uma viagem que durou mais de **seis horas**. O percurso esbanja barro, buracos e caminhões atolados, evidenciando os desafios enfrentados pelos motoristas. Keginaldo da Silva, um caminhoneiro, ficou preso em um trecho complicado e declarou: “Agora é esperar o socorro”.

Em um estado de esperança, porém cauteloso, as autoridades locais prometem melhorias e já começaram a retomar obras ao longo da BR-319. Para a redação do Diário do Estado, este caso evidencia a necessidade urgente de investimentos em infraestrutura para evitar novas tragedias e assegurar a mobilidade dos cidadãos. De acordo com o Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNIT), é imprescindível um plano de ação eficaz para restaurar a integridade da rodovia que serve de um dos principais corredores logísticos da Amazônia.

A situação da BR-319 afeta diretamente a qualidade de vida das comunidades que a cercam e representa um desafio contínuo para as autoridades. A falta de opções de transporte viable e segurança em suas viagens não só limita a economia local como também impõe um isolamento social que se perpetua ao longo dos anos.

A equipe de reportagem do Diário do Estado esteve em Manicoré e conversou com diversos moradores, que expressaram seu desespero e necessidade de uma solução definitiva. Continuaremos acompanhando as atualizações sobre as condições da rodovia e os esforços das autoridades locais para restaurar este importante meio de conexão na Amazônia.

Por Portal da Navegação, via Diário do Estado.