Alunos de comunidade de Santarém enfrentam o rio Amazonas para chegar à escola

Estudantes da Escola Municipal Santa Cruz, na comunidade ribeirinha Piracãoera de Cima, pegam horas em embarcações que, muitas vezes, são resultado de esforços coletivos

Ândria Almeida

A Amazônia é conhecida pela vasta biodiversidade, com uma floresta e rios que guardam belezas e histórias ainda não contadas. Uma dessas histórias é de uma comunidade onde professores e alunos precisam desafiar a imensidão do maior rio do mundo para ter acesso à sala de aula. Esta ainda é uma vivência na maioria das comunidades ribeirinhas amazônicas, a exemplo do que ocorre em Piracãoera de Cima, que fica localizada a 20 km da área urbana do município de Santarém, oeste paraense.

A reportagem acompanhou a ida dos educadores Enivaldo de Jesus e Marcos Sousa até a Escola Municipal Santa Cruz. São duas horas de trajeto pelo rio Amazonas, que banha a cidade de Santarém. Esse percurso é realizado pelos educadores semanalmente, já que eles ficam hospedados em um alojamento anexo ao educandário. A estrutura da escola é de madeira e foi construída com assoalhos altos por conta das cheias. Atualmente, a unidade escolar tem 224 alunos.

O amor por ensinar é o que motiva esses professores a não desistirem diante das dificuldades. Apesar das escolhas um tanto difíceis, como renunciar ao convívio familiar, dizem que a recompensa é trazida de imediato. “É muito mais que conteúdo de sala de aula, a gente leva sonhos, a gente leva esperança, aquela ideia de que é possível um mundo melhor quando a gente frequenta uma sala de aula. Então o nosso trabalho vai muito além do conteúdo propriamente dito ali”, destaca o professor Enivaldo de Jesus.

A escola conta com o apoio de uma lancha escolar para transportar os alunos. Quer dizer, contaria. O transporte não está funcionando por um problema no motor, que, segundo o piloto responsável, é um problema esporádico. Mesmo com a lancha, os alunos ainda necessitam de embarcações para chegar até o transporte de apoio, pois a embarcação escolar não chega até as residências.

“Quando chega a enchente, fica muito difícil, porque todos os pais têm canoa. Da residência até o barco precisa de uma canoa, ou às vezes eles têm uma canoa e precisam sair para pescar. Às vezes amanhece chovendo, então há uma dificuldade muito grande”, conta a professora Nazaré Maia, que trabalha há 23 anos na escola Santa Cruz.

Mesmo diante dos problemas enfrentados pelos alunos, houve apenas três desistências no ano passado. O baixo número de evasão escolar surpreende quando se leva em consideração toda dificuldade de acesso que os alunos têm até a chegada no ambiente escolar.

Os desafios começam na porta das casas desses estudantes, pois em época de cheia, que ocorre durante o inverno amazônico, no período de dezembro a junho, a água deixa a escola e as casas ilhadas, sendo necessário percorrer o rio para se deslocar. Nem sempre esse transporte fluvial está disponível. Quando isso ocorre, todos buscam se ajudar, em uma verdadeira corrente de união em prol do ensino das crianças e adolescentes. “Às vezes eles pedem ajuda para os vizinhos trazer os filhos e eles conseguem acompanhar as atividades escolares dessa forma”, apontou a professora Nazaré.

Todos se unem para que as crianças não desistam de terminar os estudos.

Essa corrente tem como incentivador um dos alunos da Escola Santa Cruz: Josian Moreira, de apenas 14 anos. Ele conduz uma canoa, mas conhecida como bajara, e leva outros cinco colegas de turma. Essa prática se tornou comum nesta época do ano. Josian é de poucas palavras, mas quando questionado sobre a pretensão de formação, ele responde sem hesitar: “Quero ser pescador e continuar aqui”, contou o adolescente.

Objetivo é se formar para contribuir com a comunidade

Distância, dificuldades de transporte e condições precárias da escola não afastam estudantes e professores. Apesar de todas essas intempéries, o professor Marcos Sousa relata que os alunos têm uma sede insaciável por conhecimento. “Eles estão muito atentos ao que nós passamos, somos como uma referência para eles com relação à aprendizagem”, disse orgulhoso.

O educador Marcos Sousa acredita que o ensino escolar no campo não tem a intenção de formar o aluno para deixar a comunidade. “A nossa ideia é apresentar oportunidades para que ele perceba que é possível vir pra cidade, aprender, se qualificar, se formar e voltar para a sua comunidade para contribuir com os comunitários”, explica. Ele se enche de orgulho ao contar a história de ex-aluna que foi para a cidade, se formou e hoje está na comunidade, contribuindo como profissional. “Hoje ela é a pedagoga da escola, então esse trabalho a gente percebe que é extremamente gratificante, a gente contribui para que eles tenham essas alternativas”, contou.

Histórias como a contada pelo professor são bem comuns na comunidade, e servem de inspiração para muitos. Seu Aldair Pereira é ex-aluno da escola Santa Cruz e hoje faz parte do quadro de funcionários da instituição. “Saí daqui para estudar e me formei em pedagogia, agora estou esperando o resultado da vaga do processo seletivo de atuação na área. Já fui aprovado e estou na expectativa de ser chamado. Atualmente eu trabalho aqui na escola como vigia”, disse.

Adria Pereira vê nos professores da escola uma inspiração. Ela conta que seu maior sonho é se formar em pedagogia e trabalhar na escola onde estuda atualmente. “Prefiro ficar aqui perto dos meus pais e contribuir para que outros estudantes possam se formar”, contou.

A aluna Ane dos Santos, de 9 anos, quer participar de aulas de balé. A pequena arrisca algumas coreografias enquanto não realiza o sonho. “É muito difícil chegar para cá. E quando a lancha [escolar] estraga, fica muito mais difícil de chegar”, relatou.

Alunos estudam no calor e professores dormem com goteiras

Professores reclamam que no alojamento onde ficam, em dias de chuva, as goteiras tomam conta do espaço. Segundo eles, já precisaram adaptar o espaço com plástico de colchões por cima da rede para conseguirem dormir sem se molhar.

Outra dificuldade foi a falta de energia elétrica nos alojamentos, sendo necessário que os educadores improvisem uma “geladeira” com isopor e gelo trazido da cidade para conservar a comida da semana.

Em nota, a Semed negou que os ventiladores não sejam utilizados diariamente e justificou que durante o dia em que a reportagem esteve no local, a diretora estava de férias e o secretário estava ausente resolvendo demandas em Santarém e por essa razão os ventiladores não estavam ligados.

Sobre as goteiras nos alojamentos dos professores, a Semed admitiu o problema e informou “que algumas medidas paliativas já foram tomadas, mas sem êxito. Após o período chuvoso outras providencias deverão ser tomadas”.

Com relação ao questionamento do transporte escolar que estava parado, na última terça-feira, a nota afirma que o problema no motor já foi resolvido e a lancha já está em atividade novamente.

Estudantes recebem prêmio e bolsa de estudos nacional

O professor Edivanderson Lopes Silva coordenou os alunos da escola em um projeto que conquistou o prêmio Abric de Incentivo à Ciência, na 20ª Feira Brasileira de Ciências e Engenharia. Esta iniciativa foi intitulada “O ensino de frações utilizando a adubação na agricultura familiar na comunidade ribeirinha Piracãoera de Cima”, na qual os participantes desenvolveram uma forma de facilitar o aprendizado e ensinar utilizando a adubação correta em hortas para melhorar o cultivo.

“Nós fizemos levantamento na comunidade e identificamos quais as hortaliças mais plantadas e que eram pimentinhas, pimentão e tomate. E aí utilizando essas três hortaliças e quatro tipos de adubo, nós elaboramos 36 frações a fim de identificar qual seria a mais recomendada para cada um”, explicou Edivanderson.

Em 2020, o projeto rendeu um segundo lugar no prêmio Professor Transformador, na categoria ensino fundamental. Este prêmio reconhece projetos desenvolvidos por educadores da educação infantil alinhados às diretrizes da BNCC (Base Nacional Comum Curricular).

Os três alunos inscritos no projeto vão ganhar uma bolsa de estudo em Iniciação Científica Júnior. “Eles vão desenvolver um outro projeto para futuramente apresentar em outros eventos e continuar contribuindo com a melhoria de vida e na educação de Piracãoera”, finalizou.

O pescador Rosinaldo dos Santos, pai de sete filhos, conhece o peso de completar os estudos e ter uma boa educação. Ele não pôde estudar porque na época que era criança não tinha escolas na comunidade. “Não tive a oportunidade que eles estão tendo, então mostrei essa importância para eles. Estou colhendo os frutos”, disse.

Por Portal da Navegação, via O Liberal.

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